Às vezes

21:22


Pergunto-me quem seria hoje
se as minhas insónias e, 
consequentes, dores de cabeça 
nunca tivessem aparecido
ou se tivessem sido resolvidas 
no momento em que apareceram. 

Aos quatro anos de idade, 
não me passou pelo pensamento o seu porquê
e se tivesse, 
provavelmente,
teriam-me mandado a um psicólogo
para resolver algum tipo de trauma 
inexistente 
deixado pelo divórcio dos meus pais.

Como nunca me queixei, 
vivo sem viver desde aí, 
dormindo aos poucos
e aos cantos,
pensando demasiado 
sem conseguir parar. 

Hoje, 
acreditam que uma mão cheia de comprimidos
(uns para dormir, 
outras para as dores que não me deixam) 
me resolvem o problema. 

Mas este sono, 
drogado, 
é talvez pior que a falta dele.
É pior esta lucidez fingida
que a falta dela a qualquer hora do dia.

É pior esta alegria que não é minha
(mas sim dos medicamentos)
que a tristeza que me atormenta,
pois essa eu conheço e com ela sei lidar. 
É pior viver na mentira
do que não viver. 

Mas ninguém acredita.
Ninguém acredita 
e ninguém quer crer
quando digo que é pior esse sobreviver
do que o meu existir.

No entanto, nem existir eu já tolero 
e dou por mim a perguntar, 
quem seria hoje se conseguisse dormir?
Quem seria sem as minhas insónias? 

Percebo que não sei. 
Não sei quem seria. 


E não sei porque não me conheço 
sem esta melancolia vazia. 
Sem esta tristeza sem razão. 
Sem esta saudade de nada. 

E talvez por isso prefira
esta existência amargurada 
que a qualquer vida mascarada.

Carolina C.

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